Causídico
3.7.05

Coluna de Luis Fernando Veríssimo, publicada em 03/07/2005 no jornal O Globo.

Antiquados

Cole Porter, em “Love for sale”, o hino extra-oficial da prostituição, disse que todo tipo de amor estava à venda menos amor verdadeiro. Isso foi no tempo dele. Hoje, segundo o Millôr, dinheiro compra até amor sincero. Políticos não vendem seus votos, apenas. Vendem seus mandatos. Trocam de partido — e de princípios e lealdades — por dinheiro, como jogadores de futebol trocando de clubes, e beijam na boca. Você eu não sei, mas eu e o Cole Porter somos do tempo em que prostituta era prostituta e não se admitia que jogadores deixassem nosso time sem nem um “tchau”, ainda mais para ir jogar no time rival. Alguns iam, mas sob nossos protestos e vaias. Pensávamos que o amor à camiseta deveria ser mais forte do que tudo, e principalmente mais forte do que o dinheiro. O que mudou destes tempos para cá, claro, é que o dinheiro ficou mais forte do que tudo. O futebol se profissionalizou (ótimo), os jogadores passaram a pensar mais nas suas carreiras e famílias do que nos nossos sentimentos (compreensível) e não é mais raro o ídolo de uma torcida jogar no time inimigo (buuuu!). Nos resignamos mas não nos convencemos. A dor que sente o torcedor ao ver um jogador traindo sua camiseta com outra é a última resistência conhecida à lógica capitalista que rege o mundo.

Talvez este persistente espírito amadorístico esteja prejudicando nossa avaliação da corrupção em geral e dos políticos que se vendem em particular. O que pensamos ser uma sensação de ultraje pode não passar de apego a valores ultrapassados num mundo em que o dinheiro é tudo. Seria tão antiquado esperar fidelidade dos políticos às suas convicções, ao seu partido e à ética quanto esperar que um jogador ame só uma camiseta a vida toda. Eles estariam no mercado, com seus mandatos e suas diferentes habilidades, para quem pagasse mais. Poderiam até recorrer a empresários para tratarem dos seus contratos. Tudo às claras — pelo menos na medida que as transações no futebol são claras. Nós, o povo (ou seja, os amadores), simplesmente não estaríamos entendendo que os tempos são outros e prostituição tem outro nome, e que a melhor maneira de valorizar nossos políticos é saber o preço de cada um.

E tem outra coisa: como no caso dos jogadores profissionais, sempre haveria a possibilidade de vendermos todos para a Europa.