"A terra, a estação, a juventude, a languidez de tôdas as cousas que me rodeavam, casavam-se maravilhosamente com o meu próprio abatimento: aumentavam-o, suavizando-o. Eu mergulhava-me em abismos de tristeza. Mas essa tristeza era viva, suficientemente cheia de pensamentos, de impressões, de comunicações íntimas com o infinito, de claro-escuro na minha alma, para que eu não desejasse subtraír-me a ela. Enfermidade do homem, mas enfermidade em que o próprio sentimento é um atractivo em vez de ser uma dôr, em que a morte se assemelha a um voluptuoso delíquio no infinito e à qual estava resolvido a entregar-me completamente, a desviar-me de tôda a sociedade que dela pudesse distraír-me, e a rodear-me de silêncio, solidão e indiferença, no meio da gente que lá encontrasse. O meu isolamento de espírito era a mortalha através da qual eu já não queria ver os homens, mas só a natureza e Deus.".*

 

 

in LAMARTINE, A.,

Rafael, Páginas dos Vinte Anos,

trad. João Grave,

Colecção Lusitânia, Porto, 1916.

 

 

 

*Preservou-se o Português da tradução original.

 

 

 

 

 

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